O peso do fator gênero em tempos de pandemia

Para iniciarmos nossas reflexões gostaria de situar você no que entendemos como gênero, de forma simplista, gênero é a maneira que as diferenças entre homens e mulheres assumem nas diferentes sociedades no transcorrer da história. Deste modo, o fator gênero é construção cultural que pode ser moldada e sofrer variações dependendo do tempo, local, cultura em que o ser humano está inserido.

O fato é que a maneira de ser homem e mulher em nossa sociedade foi CONSTRUíDA  em estruturas historicamente patriarcais, que distribuem PODER entre homens e mulheres de forma desigual, destinando papéis sociais, características, funções, maneiras de ser inferiores ou subalternas, existem vários estudos sobre isso.

Essas desigualdades se tornaram preocupação do Estado em diferentes momentos da história à depender do país analisado, entretanto há alguns pontos em comum no mundo que provocaram a chamada da questão para a necessidade da intervenção do poder público, à exemplo da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948; o surgimento do movimento feminista, na década de 60; a conquista ao acesso à educação e outros avanços em direção a maior equidade entre os sexos.

É importante destacar que essas DESIGUALDADES acomete as mulheres de modo diferente pois estão correlacionadas a outros marcadores de desigualdade como raça e etnia, classe social, orientação sexual e território, fator este denominado pelas autoras feministas de interseccionlidade de gênero.

O momento atual em que enfrentamos o avanço da crise sanitária provocada pelo Covid-19 e a quarentena imposta como alternativa de barrar o avanço do vírus, não é diferente, estudiosos da temática já tem apresentado publicações alertando sobre o aumento dessa desigualdade de gênero em tempos de pandemia, destaco o estudo realizado pela antropóloga PASINI (2020) no qual ela analisa um série de reportagens nacionais e internacionais sobre a temática, que aqui condenso em 05 grandes pesos do fator gênero em tempo de pandemia.  SÃO ELES:

  • O primeiro e certamente mais visível é a sobrecarga das mulheres com o acúmulo de tarefas domésticas, cuidados com os filhos e outros dependentes. O fato é que devido as medidas de isolamento social toda família está confinada no ambiente doméstico, entretanto as tarefas para manutenção desse ambiente e das crianças, não entraram de quarentena, ao contrário, houve um aumento das funções a serem desenvolvidas no lar e como já era de se esperar, a execução dessa tarefa recai em grande parte as mulheres, reflexo dos papeis de gênero estabelecidos historicamente.
  • O segundo fator é o crescente índice de violência doméstica nesse período verificada em vários países, as medidas de confinamento propiciaram um maior contato entre os membros da família, muitas mulheres estão em quarentena com seus agressores, que associadas ao estresse, dificuldades econômicas e uso abusivo de álcool comum nesse período, potencializam a ocorrência de violências contra as mulheres e demais membros vulneráveis da família, como crianças e idosos.
  • O terceiro peso do fator gênero destacado é que o mercado de trabalho em saúde é fortemente marcado por papeis de gênero, profissões como enfermagem, técnicos e auxiliares de saúde, categorias estas que estão em maior contato com os pacientes, são historicamente desempenhadas pelas mulheres, logo elas são a maioria das profissionais de saúde da linha de frente de combate ao Covid-19, estando, portanto, mais sujeitas a contaminação.
  • A quarta observação diz respeito aos impactos econômicos gerados em tempos de crise, que também são desiguais para homens e mulheres, visto que estas estão em sua maioria em trabalhos informais e precarizados e que grande parte delas desistiram dos empregos para cuidar da casa e dos filhos durante a quarentena.
  • O quinto fator, ainda não estudado no Brasil, mas já observado em outros países que é o possível aumento da taxa de mortalidade materna e infantil devido à falta de acompanhamento de pré-natal, parto e puerpério, visto que os esforços atuais da saúde estão direcionados para o combate ao COVID-19.

Diante deste cenário tão desafiante para toda humanidade, em especial para as mulheres, os governos têm lançado estratégias para combater essas desigualdades e assegurar proteção as mulheres no isolamento social. Como exemplo, no Brasil foi lançado um auxílio emergencial, o qual tem caráter financeiro destinado aos trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados, e tem por objetivo fornecer proteção emergencial no período de enfrentamento à crise causada pela pandemia do Coronavírus – COVID 19. O auxílio faz o recorte de gênero quando o valor do auxílio dobra para mulheres responsáveis pelo sustento financeiro de sua família (BRASIL, 2020).

Em Teresina, visando abrandar os danos causados à mulher no cenário atual e dar continuidade aos seus atendimentos em tempos de isolamento, a Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres (SMPM) elaborou O #TeresinaParaElas: Estratégias para enfrentamento à violência contra a mulher no período da pandemia do Covid-19, esse plano de ação denominado tem  os seguintes eixos de atuação: comunicação; enfrentamento à violência e articulação. O documento propõe uma série de ações e programas específicos para enfrentar situações críticas de violência por razões de gênero, em que pese a situação da pandemia do Covid -19. O documento na integra está disponível no site institucional da SMPM. Informe-se, proteja-se e apoie mulheres. Juntas somos mais fortes!

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL, Decreto Nº 10.316, de 7 de Abril de 2020.

PISANI, M da S. O enfrentamento e a sobrevivência ao Coronavírus também precisa ser uma questão feminista!. Boletim n.12 – Ciências Sociais e coronavírus, 03/04/2020. Disponivel em: http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2323-boletim-n-12-o-enfrentamento-e-a-sobrevivencia-ao-coronavirus-tambem-precisa-ser-uma-questao-feminista. Acesso em: 04/05/2020 às 22 horas.

TERESINA. Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres. #Teresina para elas: Estratégias para o enfrentamento à violência contra a mulher no período de Pandemia Covid-19. ORG:SMPM, 2020.

 

Caroline Leal – Assistente Social da Gerencia de Enfrentamento à Violência contra Mulher da Secretaria de Políticas Públicas para mulheres de Teresina e Assistente Social do Centro de Atenção Psicossocial II Sul Teresina

SMPM promove live para debater desigualdade de gênero e masculinidade nesta quinta (30)

A Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres (SMPM) promove nesta quinta-feira (30), a partir das 11h, uma live no instagram @smpmteresina para debater as desigualdades de gênero e masculinidades em tempo de pandemia. O diálogo virtual contará com a participação da gerente de Enfrentamento à Violência da SMPM, Lidiane Oliveira, e do Mestre em sociologia, Weriquis Sales.

A atividade faz parte do projeto #TeresinaParaElas, iniciativa que busca executar ações estratégicas direcionadas ao público feminino durante o período de pandemia, tais como promoção de debates, divulgações de conteúdos informativos, preventivos, de entretenimento, dentre outros.

Segundo o sociólogo, Weriquis Sales, o diálogo virtual serve para desconstruir conceitos sobre a masculinidade e desigualdades de gênero, que legitimam práticas de violência contra as mulheres, e também discutir os agravantes desse problema social em tempos de pandemia.

“A masculinidade, que historicamente tem espaço externo ao lar, o seu espaço de domínio, agora é levado a vivenciar incisivamente o espaço doméstico. Existem várias nuances desse problema que podem ser analisadas, como por exemplo, como isso impacta o mercado de trabalho, acentua a violência sofrida pelas mulheres, nesse último quesito, pensar que tipo de masculinidade legitima essas práticas de violências é essencial para combatê-la”, afirma o sociólogo.

Para a gerente de Enfrentamento à Violência da SMPM, Lidiane Oliveira, é importante entender porque existe essa violência e onde ela inicia, compreendendo assim suas razões e motivações.

“Sabemos que essa masculinidade tóxica, essa formação masculina que se exige do homem, com agressividade e virilidade, acaba trazendo problemas graves à sociedade. Então vamos debater esses assuntos, tentando entender como a gente pode desnaturalizar esses processos dentro da sociedade, precisamos dialogar para que se forme uma nova cultura a partir disso”, finaliza a gerente.